sábado, 15 de fevereiro de 2014

Triste ironia

Ilustr.: Maria Amaral



Aquele abraço era o lado bom da vida,
mas para valorizá-lo eu precisava viver.
E, que irónico:
para viver eu precisava perdê-lo...

[Tati Bernardi]

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Não basta ser namorado



Era uma vez um homem que tinha uma floricultura e alguém que vivia por entre flores, só podia entender muito de amor. Bem, mas vamos à história:

Era dia dos namorados, um rapaz entrou correndo em sua loja e disse-lhe:
- Por favor, senhor,  providencie-me um bouquet de flores.
- E que tipo de flores você quer?
- Qualquer tipo, só quero que seja algo que faça vista, pode ser o mais caro que o senhor tiver aí.
- Está certo, então tome o cartãozinho para você escrever.
- Não tem necessidade, é para minha namorada e como hoje é o dia dos namorados ela saberá que é meu.
- Você é que sabe, mas no seu lugar, eu escreveria.
- Não posso, estou com muita pressa, vou levar meu o carro para lavar.
Depois que o rapaz se foi, o senhor ficou ali a pensar como alguém poderia enviar flores sem as escolher, sem escrever um cartão com uma bonita dedicatória... mas enfim preparou um bonito bouquet e mandou para o tal endereço pensando... coitada dessa moça!

Algumas horas depois um outro rapaz entrou na sua loja.
- Senhor, por favor, eu quero mandar uma flor para alguém e é alguém muito especial e não tenho dinheiro suficiente para um bouquet requintado, sendo assim terá que ser somente uma rosa, mas faço questão que seja a mais linda que exista em sua floricultura.
- Pois bem, você quer escolhê-la ou prefere que eu escolha?
- Gostaria de escolher, mas aceito a sua sugestão porque tenho certeza que o senhor entende bem disso.
- Será um prazer! É sua namorada, não?
- Não senhor, ainda não, mas isso não é importante, o importante é que eu a amo e acho que hoje é um bom dia para dizer isso a ela.
- Muito bem, concordo com você.
- Talvez eu devesse escolher um botão de rosa, não acha? Afinal, nosso amor ainda não floresceu.
- Muito bem pensado!
Naquele instante o senhor percebeu que o rapaz, como ele, entendia de amor e com certeza estava vivendo um doce amor.
- Por favor, faça o mais bonito invólucro que o senhor puder fazer enquanto escrevo o cartão.
"Meu amor, estou lhe mandando esse botão de rosa juntamente com meu carinho. A mim não importa que você não me ame, porque apesar do meu amor ser solitário ele é verdadeiro e sendo verdadeiro, confio que um dia poderá viver acompanhado do seu. Não tenho pressa, amor de verdade não tem pressa,
amor de verdade não escraviza, nem exige, apenas se importa em doar. Um feliz dia dos namorados ao lado de quem você amar. Um beijo!"
Depois que escreveu o cartão o rapaz entregou ao senhor e disse-lhe:
- Leia por favor e me dê a sua opinião.
- Perfeito, gostei muito, só faltou um pequeno detalhe, você esqueceu de assiná-lo.
- Não esqueci não, é que não é importante por enquanto que ela saiba quem sou eu, nesse momento eu só pretendo que ela sinta quem sou eu.
O senhor sorriu e disse-lhe:
- Muito bem meu filho, torço por você!

Passaram-se os dias, os meses e um novo dia dos namorados chegou e novamente o primeiro rapaz voltou a loja.
- Bom dia senhor, lembra-se de mim?
- Lembro sim, e então, como vai o namoro?
- Xii... o senhor nem imagina, depois daquele Dia dos Namorados do ano passado ela terminou comigo e eu nunca entendi a razão, agora já estou namorando outra.
- Mas ela não lhe deu nenhuma explicação?
- Ah deu sim, uma explicação que eu não entendi. Ela me disse que eu a estava perdendo por causa de um botão de rosa. O senhor entende, não é? Bobagens de mulher.
- Entendo sim, quem não entendeu, foi você!

Não adianta um casal apenas sorrir juntos, eles precisam é sorrir pelas mesmas coisas. Não serve apenas caminharem juntos, tem que ser na mesma direção. Não adianta somente mandar flores, é crucial que elas cheguem ao seu destino com o perfume. Não vale se fazer presente apenas de corpo, é de suma importância que a alma e o coração estejam  presentes também.

Em resumo:
Não basta ser namorado. É preciso estar enamorado!

[Jorge Lordello]

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Eu amo tudo o que foi

Ilustr.: Chanelle Kotze


Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errónea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

[Fernando Pessoa]

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

365 dias

Foto: Cláudio Paulino (11/12/2012)
Entre as pedras da calçada,
fresca, arejada mas sombria,
jazem momentos sem palavra
que sobejam do viver do dia.

A cada passo, e sem pegada,
ressoam silêncios do sentir.
Grito de vivência sonegada,
Ecos que desejo compartir.

Trezentos e sessenta e cinco
são os dias do caminho ido
Sublinho a data, faço o vinco,
Sigo, firme, comprometido.

[Luís Gonzaga, 12/02/2014]

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tacto

Ilustr.: Ivan Cruz


Quer jogar?
Que rolem os tactos!

[Dan Cezar]

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Se puder ser...

Ilustr.: Sani Sue



Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

[Álvaro de Campos]

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Retiro na Alma

Ilustr.: Anatoly Dverin
Há quem procure lugares de retiro no campo, na praia, na montanha;
e acontece-te também desejar estas coisas em grau subido.
Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos.
Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma, sobretudo quando se tem dentro dela aqueles bens sobre que basta inclinar-se para que logo se recobre toda a liberdade de espírito, e por liberdade de espírito, outra coisa não quero dizer que o estado de uma alma bem ordenada.
Assegura-te constantemente um tal retiro e renova-te nele.
Nele encontrarás essas máximas concisas e essenciais;
uma vez encontradas dissolverão o tédio e logo te hão-de restituir curado de irritações ao ambiente a que regressas.

[Marco Aurélio, Imperador Romano, in "Pensamentos"]

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Bem sei...

Ilustr.: Amy Elizabett
Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
Mas tu, porque com isso mais te apuras,
De manhoso, mo negas, e mo juras
Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.

A mão tenho metida no meu seio,
E não vejo os meus danos às escuras;
Porém porfias tanto e me asseguras,
Que me digo que minto, e que me enleio.

Nem somente consinto neste engano,
Mas inda to agradeço, e a mim me nego
Tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh poderoso mal a que me entrego!
Que no meio do justo desengano
Me possa inda cegar um moço cego?

[Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"]


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Mudança de Idade

Ilustr.: Ricardo Celma
Para explicar os excessos do meu irmão, a minha mãe dizia: está na mudança de idade.
Na altura, eu não tinha idade nenhuma e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão, eu morria de inveja enquanto me perguntava: em que idade a idade muda?
Que vida, escondida de mim, vivia ele? Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa, eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques mas vinham de longe, de onde já não chega o luar. Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis que era um modo de beijar o nosso sono. Meu anjo, não durmas triste, pedia. E eu não sabia se era comigo que ela falava. A tristeza, dizia, é uma doença envergonhada. Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras soavam mais longe que os tambores nocturnos. O que invejas, falava a mãe, não é a idade. É a vida para além do sonho. Idades mudaram-me, calaram-se tambores, na lua se anichou a materna voz. E eu já nada reclamo.
Agora sei: apenas o amor nos rouba o tempo. E ainda hoje estico os lençóis antes de adormecer.

[Mia Couto]

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tédio

Ilustr.: Ronald Companoca

Dizem que o tédio é uma doença de inertes, ou que ataca só os que nada têm que fazer.
Essa moléstia da alma é porém mais subtil: ataca os que têm disposição para ela, e poupa menos os que trabalham, ou fingem que trabalham (o que para o caso é o mesmo) que os inertes deveras.
Nada há pior que o contraste entre o esplendor natural da vida interna, com as suas índias naturais e os seus países incógnitos, e a sordidez, ainda que em verdade não seja sórdida, de quotidianidade da vida.
O tédio pesa mais quando não tem a desculpa da inércia.
O tédio dos grandes esforçados é o pior de todos.
Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada. E, sendo assim, quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir.

[Fernando Pessoa]

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Necessário

Ilustr.: Jeff Faust



Seja qual for o relacionamento que você atraiu para dentro de sua vida,
numa determinada época,
ele foi aquilo de que você precisava naquele momento.

[Deepak Chopra]

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ventre

Ilustr. from Ironland




Quando os seus ventres se arredondam,
uma porção de céu fica acrescentada.

[Mia Couto, in 'A Confissão da leoa']

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Adversidade

Ilustr.: Lauri Blank




A adversidade restitui aos homens todas as virtudes que a prosperidade lhes tira.

[Eugène Delacroix]

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Intervalo

Ilustr.: Lena Sotskova
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?


Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

[Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"]

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Branco ou preto

Ilustr.: Nicoletta Tomas Caravia
Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente para me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas histórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crer que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre.

[Gabriel García Márquez]